Mais uma mulher negra faz história na literatura brasileira
Na última quinta-feira (10), a escritora Ana Maria Gonçalves foi eleita para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo o gramático e filólogo Evanildo Bechara, falecido em maio deste ano. A autora recebeu 30 dos 31 votos possíveis, consolidando sua entrada em um dos espaços mais tradicionais da cultura brasileira.
Com a eleição, Ana Maria se torna a 13ª mulher a ocupar uma cadeira na ABL — e apenas a quinta mulher no quadro atual de Acadêmicos. Essa vitória representa muito mais do que um reconhecimento literário: é um avanço na luta por representatividade de gênero e racial nas instituições de prestígio do país.
Ana Maria é autora de obras impactantes como Um Defeito de Cor, romance aclamado por crítica e público que reconstrói, com base histórica e emoção, a trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada no Brasil que luta por liberdade e identidade.
Além de escritora, Ana é jornalista, tradutora e militante antirracista, com atuação reconhecida em debates sobre identidade negra, cultura afro-brasileira e políticas de reparação histórica.
Sua produção literária dá voz a personagens e histórias apagadas pelos discursos oficiais — e isso, por si só, já rompe paradigmas dentro da elite cultural.
A entrada de Ana Maria Gonçalves na ABL marca um momento histórico para a literatura brasileira, pois traz para o centro de decisões uma mulher negra, periférica e engajada, em um espaço que por muito tempo foi ocupado quase exclusivamente por homens brancos.
Mais que uma nomeação simbólica, essa eleição abre portas para novas vozes e trajetórias. Reforça a importância da pluralidade cultural e da escuta ativa, em tempos nos quais silenciar histórias é uma forma de violência.

Para o presidente da ABL, Merval Pereira, é uma das maiores escritoras brasileira dos últimos anos. O livro Um defeito de cor foi considerado o mais importante da literatura brasileira dos últimos 25 anos. Só por isso, merece entrar para a ABL. Além disso, é uma mulher negra e a ABL está empenhada em aumentar sua representatividade entre seus pares.
“Ana Maria terá a função de demonstrar que a ABL está sempre querendo aumentar sua representatividade de sexo, cor, e qualquer tipo que represente a cultura brasileira. Queremos ser reconhecidos como uma instituição cultural que represente o Brasil, a diversidade brasileira. Ela aumenta nossa vontade de estar sempre presente nos movimentos sociais relevantes.”
Ana Maria Gonçalves nasceu em Ibiá, em Minas Gerais, em 1970. Começou a escrever contos e poemas desde a adolescência, sem chegar a publicar. A paixão pela leitura nasceu durante a infância, e desde criança lia jornais, revistas e livros.
Após 15 anos de atuação na área da Publicidade, ela optou por sair para escrever “Ao lado e à margem do que sentes por mim” e “Um defeito de cor”, um sucesso literário. A obra venceu o prêmio Casa de Las Américas (Cuba, 2007) e foi eleita por críticos convidados pelo jornal Folha de São Paulo como o livro mais importante do século XXI.
O romance, de 952 páginas, foi publicado em 2006 e levou cinco anos para ser concluído (dois anos de pesquisa, um de escrita e dois de reescrita). Ele narra a trajetória de Kehinde, uma mulher negra sequestrada no Reino do Daomé e escravizada na Bahia.
A bibliografia de Ana Maria é marcada por um caráter intimista e autobiográfico, resultado de pesquisas profundas sobre as heranças africanas no Brasil.
Já publicou contos em Portugal, Itália e nos EUA, onde também morou por oito anos e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais. Foi escritora residente em universidades como Tulane (New Orleans, LO), Stanford (Palo Alto, CA) e Middlebury (Middlebury, Vermont).
Ana Maria também é dramaturga e roteirista de peças como Tchau, Querida! (2016), Chão de Pequenos (2017) e Pretoperitamar – O caminho que vai dar aqui (2019), esta última em parceria com a atriz Grace Passô, que aborda a trajetória do artista negro Itamar Assumpção.
Atualmente residente do Rio de Janeiro, é roteirista (Rio Vermelho) e professora de escrita criativa. É co-curadora da exposição “Um defeito de cor” (MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro; MUNCAB – Salvador e SESC Pinheiros – SP), eleita como a melhor exposição de 2022. (Fonte: Academia.Org.Br)
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